Destaque no Festival de Cannes, ‘Papicha’ terá sessão gratuita em 30 de outubro seguida de debate com Salem Nasser no Cine Petra Belas Artes

dom, 27/10/2019 - 01:55
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Longa foi escolhido para representar a Argélia no Oscar 2020. Evento é uma realização da Pandora Filmes em parceria com o ICArabe e o jornal O Estado de São Paulo. O crítico de cinema Luiz Carlos Merten também participará do debate.

Um dos destaques da mostra Um Certain Regard na última edição do Festival de Cannes, PAPICHA, primeiro longa de Mounia Meddour, terá uma sessão especial seguida de debate, no dia 30 de outubro, às 19h30. O evento, realizado em parceria com o jornal O Estado de São Paulo e o ICArabe, terá como debatedores o jornalista e crítico de cinema Luiz Carlos Merten, o professor especialista em Direito Internacional Salem Nasser e a antropóloga Carol Delgado, que circula nas áreas de moda e cultura urbana. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados uma hora antes da sessão nas bilheterias do cinema Petra Belas Artes.

 

PAPICHA estreia no Brasil em 31 de outubro, com distribuição da Pandora Filmes. O filme, que foi selecionado pela Argélia para concorrer a uma indicação na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar® 2020, acompanha a trajetória da jovem Nedjma logo após o início da Guerra Civil da Argélia, que durou de 1991 a 2002.

 

Nedjma é uma estudante universitária, apaixonada por moda. Seu sonho é realizar um desfile com uma coleção inteira desenvolvida por ela. Mas, com o extremismo tomando força e o país tornando-se cada vez mais conservador, ela precisará lutar para manter sua liberdade e independência e ter seu lugar no mundo respeitado.

 

Num filme, eu gosto que os espectadores se identifiquem com os personagens e os sigam em suas aventuras; gosto de ver como superam obstáculos e tragédias e se tornam pessoas melhores”, explica a diretora. “Eu queria contar a história dessa jovem que através de sua resistência nos leva a uma jornada cheia de armadilhas, que mostra as múltiplas facetas da sociedade argelina, com amizade, amor e lutas”.

 

Meddour comenta que PAPICHA é, em parte, uma obra autobiográfica pois ela mesma cursava faculdade num campus como o mostrado no filme e, ao final do primeiro ano, quando tinha 17 anos, sua família precisou deixar a Argélia, pois intelectuais e artistas estavam sendo ameaçados e seu pai era um cineasta. “Todas as experiências da protagonista na universidade representam o dia-a-dia das estudantes argelianas no final dos anos 90. Incluindo eu mesma. Com o fundamentalismo em ascensão, a opressão vinha de todos os lados”, comenta. “Muitas garotas se esforçam muito para chegar à universidade e morar no campus, para estudar, claro, mas também para ter um pouco de liberdade, fugindo do domínio de sua família”.

 

A ideia do roteiro, também assinado por Meddour, já existia há tempos, mas foi preciso que ela se sentisse confortável e confiante para finalmente levá-lo à tela. “Quando decidi escrevê-lo, escolhi transmitir essa experiência de maneira ficcional. Mas, eu queria ser fiel aos detalhes, às memórias e à música daquela época”.

 

Na construção do filme, uma preocupação da realizadora era o quão longe poderia ir em relação à violência. “Nós comprimimos uma evolução que levou anos a apenas algumas semanas”, diz. Para representar essa opressão, o campus da universidade funciona como um microcosmo da sociedade. “Há uma graduação no filme: os cartazes fora do campus, depois no campus e no fim até na sala de jantar. E depois a patrulha de mulheres em hijab, que invadem o quarto das garotas para vigiá-las”, completa.

 

A paixão de Nedjma por moda tem uma dimensão simbólica para a diretora: “o que os fundamentalistas queriam era que as mulheres escondessem seus corpos. Para mim, a moda, que revela e embeleza os corpos, é uma resistência aos lenços pretos”. E completa: “Nedjma não é contra a religião, ela está lutando contra os abusos cometidos em nome da fé”.

 

O tema continua sendo delicado no país, especialmente para as autoridades. “A Argélia não esqueceu o trauma da ‘década negra’, mas as pessoas precisam exorcizar esse drama – mesmo vinte anos depois. Tiramos lições da história, afinal houve mais de 150 mil mortes. Atualmente, as queixas não são mais religiosas, as pessoas querem apenas ter uma vida melhor”, finaliza.

 

SERVIÇO

Pré-estreia de Papicha seguida de debate

Data: 30/10 (quarta-feira)

Horário: 19h

Local: Petra Belas Artes – Rua da Consolação, 2423

Ingressos: gratuitos, devem ser retirados na bilheteria do cinema uma hora antes da sessão

 

SINOPSE

Argélia, anos 1990. Nedjma, uma estudante de 18 anos apaixonada por design de moda, se recusa a deixar que os trágicos acontecimentos da Guerra Civil da Argélia a impeçam de experimentar uma vida normal e sair à noite com sua amiga Wassila. À medida que o clima social se torna mais conservador, ela rejeita as novas proibições impostas pelos radicais e decide lutar por sua liberdade e independência apresentando um desfile de moda.

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Mounia Meddour

Roteiro: Mounia Meddour em colaboração com Fadette Drouard

Assistente de direção: Benjamin Gens, Rachid Bacha

Produção: Pierre Wallon

Direção de fotografia: Léo Lefevre

Produção de elenco: Karine Malika Bouchama, Brahim Djaballah

Mixagem de som: Guilhem Donzel, Damien Lazzerini

Cenografia: Chloé Cambournac

Cabelo e maquiagem: Nathalie Myriam Fedrizzi

Figurino: Catherine Cosme

Montagem: Damien Keyeux

Edição de som: Maxence Dussere

Música: Rob

Elenco: Lyna Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda, Zahra Doumandji, Yasin Houicha, Nadia Kaci, Meryem Medjkane

País: Argélia, Bélgica, Catar, França

Ano: 2019

Duração: 106 min.

 

SOBRE A DIRETORA

Mounia Meddour nasceu e cresceu na Argélia. Com 18 anos, mudou-se para a França com sua família devido às ameaças de morte que receberam durante a Guerra Civil da Argélia. Ela estudou jornalismo antes de ingressar no programa de direção em La Fémis, em Paris. Seu primeiro curta-metragem, Edwige (2011), ganhou o Prêmio Ciné + no Festival Saint-Jean-de-Luz, o prêmio UniFrance de Curta Metragem e foi apresentado em vários festivais, incluindo o

Festival Internacional de Cinema de Dubai. Papicha é seu primeiro longa-metragem.