Série de verbetes informativos sobre os árabes: Diwan

Qui, 03/04/2025 - 10:21
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Confira o quarto verbete da série informativa do ICArabe sobre os árabes. O projeto tem como objetivo oferecer uma visão aprofundada e precisa acerca do mundo árabe, combatendo equívocos e estereótipos. Alinhada à missão do instituto, a iniciativa busca difundir conhecimento de maneira criteriosa, contribuindo para uma sociedade mais informada e consciente.

Diwan 

No ano que seguia a fundação do Instituto da Cultura Árabe, eu trouxe para esta “casa” o Projeto Diwan de Poesia e Artes, cuja primeira edição ocorreu numa noite de junho de 2005. Mediados pelas musas do Olimpo ou pelos gênios de Abqar, artífices da música, da dança e das palavras revezaram, no palco do Teatro da Aliança Francesa, a Poesia inventiva dos árabes, tanto na língua original como em sua tradução ao português. Mais que isso: naquela noite inesquecível no Centro da cidade de São Paulo poetas e contadores de histórias, atores e dançarinos dos ritmos, das palavras, musicistas da voz, do instrumento e da percussão, professores, tradutores e outros intelectuais – eles e elas – materializaram no palco algumas das acepções da palavra árabe diwan:

Algumas das acepções da palavra árabe diwan: 1. livro que reúne a poesia de um ou de mais poetas; 2. caderno no qual se registram dados de agrupamentos de pessoas, como por exemplo o de soldados que formam um regimento; 3. seção administrativa na fronteira em que se arrolam as entradas e saídas de pessoas; 4. espaço ou instância do governo, que reúne notáveis, como os ministros; 5. o assento em que essas e outras pessoas se acomodam, aquele assento linear, encostado às paredes, composto tão-só de uma base firme coberta de almofadas e futons, sem apoio estruturado para os braços, assento no qual se recebem as visitas também nas casas senhoriais e, logo, nas casas da crescente burguesia; e 6., por extensão, o nome dessas salas nas casas.

Nossa língua portuguesa, brasileira língua da mestiçagem, conhece algumas dessas acepções em termos que usamos cotidianamente. O mais familiar é o que dá nome ao divã do analista, desprovido, não sem propósito, de braços, para que o paciente ali se deite e, “desarmado”, arrole sua memória recente ou mais pregressa. “Divã” entrou no português ao que parece no século XIX via o francês, no qual entrara via o turco otomano, que o emprestou do árabe, no qual entrou ainda antes do Islã, quando a influência dos sassânidas na Península Arábica podia ser sentida também na língua que esses herdaram dos antigos persas.

Outro termo que conhecemos é “aduana”, formado com base no mesmo addiwan + a, esse nosso sufixo a marcar um feminino. Pela aduana pessoas e coisas cruzam a fronteira sob a vigilância atenta dos sensores. Todo fluxo se anota naqueles “registros aduaneiros”.

Seja livro de poemas, seja grupo de notáveis, seja assento ou sala das visitas, diwan é, portanto, e amplamente, um grande memorial das civilizações, sofá para o hóspede sem-fim da história: o tempo.

Michel Sleiman

michel sleiman

Professor de Língua e Literatura Árabes da USP e de seu Programa de Pós-Graduação Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA); coordenador do Grupo de Tradução da Poesia Árabe Contemporânea (GTPAC-USP); autor dos ensaios A arte do zajal. Estudo de poética árabe (Ateliê, 2007), A poesia árabe-andaluza. Ibn Quzman de Córdova (Perspectiva, 2000); co-autor de Latin America, Al-Adandalus and the Arab World (American University of Beirut, 2024), Mulleres medievais. Textos e imaxes na lírica galego-portuguesa (Universidade de Santiago de Compostela, 2023), As cidades no tempo (Olho d'Água, 2005), A literatura doutrinária na corte de Avis (Martins Fontes, 2001); editor de Tiraz: revista de estudos árabes e das culturas do Oriente Médio (USP, 2004-2010, 2016); editor/organizador/tradutor de Ode à errância e Poemas: Adonis, de Adonis (Tabla, 2024, e Companhia das Letras, 2012), Umm Saad e O pequeno lampião, de Ghassan Kanafani (Tabla, 2023 e 2022), Gaza terra da poesia, antologia de Muhammad Taysir (Tabla, 2022), Onze astros, de Mahmud Darwich (Tabla 2021), Poema dos Árabes, de Chânfara (Tabla, 2020); autor dos poemários Ínula Niúla (Ateliê, 2009), Do amor e da areia (s/ed, 1993), E da rosa? (UFSM, 1986), O quarto movimento (UFSM, 1985), San Tá Cidade (Prefeitura de Santa Rosa, 1984); prêmio “Sharjah Turjuman 2021” pela tradução de Onze astros, de Mahmud Darwich, prêmio “Tese Destaque USP” pela orientação de tese de doutorado em 2018; autor do Projeto Diwan de Literatura e Artes, do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe); diretor-presidente do ICArabe nas gestões de 2009-2010 e 2011-2012.